segunda-feira, 27 de março de 2017

Apnéia do sono em crianças afeta o cérebro

Untreated Sleep Apnoea in Children Can Harm Brain Cells Tied to Cognition, Mood


Março 17, 2017
CHICAGO -- March 17, 2017 -- A study comparing children between 7 and 11 years of age who have moderate or severe obstructive sleep apnoea to children the same age who slept normally, found significant reductions of gray matter in several regions of the brains of children with sleep apnoea. The study was published today in the journal Scientific Reports.
The finding points to a strong connection between this common sleep disturbance, which affects up to 5% of all children, and the loss of neurons or delayed neuronal growth in the developing brain. This extensive reduction of gray matter in children with a treatable disorder provides one more reason for parents of children with symptoms of sleep apnoea to consider early detection and therapy.
"The images of gray matter changes are striking," said one of the study's senior authors, Leila Kheirandish-Gozal, MD, University of Chicago, Chicago, Illinois. "We do not yet have a precise guide to correlate loss of gray matter with specific cognitive deficits, but there is clear evidence of widespread neuronal damage or loss compared to the general population."
For this study, the researchers recruited 16 children with obstructive sleep apnoea (OSA). The children's sleep patterns were evaluated overnight in the University of Chicago's paediatric sleep laboratory. Each child also went through neuro-cognitive testing and had his or her brain scanned with non-invasive magnetic resonance imaging (MRI). Colleagues from the University of California at Los Angeles (UCLA), Los Angeles, California, performed the image analysis.
The researchers compared those scans, plus neuro-cognitive test results, with MRI images from 9 healthy children of the same age, gender, ethnicity and weight, who did not have apnoea. They also compared the 16 children with OSA to 191 MRI scans of children who were part of an existing pediatric-MRI database assembled by the National Institutes of Health.
They found reductions in the volume of gray matter in multiple regions of the brains of children with OSA. These included the frontal cortices (which handle movement, problem solving, memory, language, judgement and impulse control), the prefrontal cortices (complex behaviours, planning, personality), parietal cortices (integrating sensory input), temporal lobe (hearing and selective listening) and the brainstem (controlling cardiovascular and respiratory functions).
Although these gray matter reductions were rather extensive, the direct consequences can be difficult to measure.
"MRI scans give us a bird's eye view of the apnoea-related difference in volume of various parts of the brain, but they don't tell us, at the cellular level, what happened to the affected neurons or when," said co-author David Gozal, MD, University of Chicago. "The scans don't have the resolution to determine whether brain cells have shrunk or been lost completely," he added. "We can't tell exactly when the damage occurred. But previous studies from our group showed that we can connect the severity of the disease with the extent of the cognitive deficits, when such deficits are detectable."
In addition, "we are planning future collaborative studies between the University of Chicago and UCLA that will use state-of-the-art imaging approaches to answer the many questions raised by the current study," said Paul Macey, PhD, who, along with colleague Rajesh Kumar, PhD, led the image analyses at UCLA.
Without extensive tests of cognitive function prior to the onset of sleep apnoea, "we can't measure the effect of the loss of neurons," Dr. Gozal said.
"If you're born with a high IQ - say 180 - and you lose 8 to 10 points, which is about the extent of IQ loss that sleep apnoea will induce on average, that may never become apparent. But if your IQ as a child was average, somewhere around 90 to 100, and you had sleep apnoea that went untreated and lost 8-10 points, that could potentially place you 1 standard deviation below normal," Dr. Gozal said. "No one wants that."
Or, it may just be too soon to measure. The children in this study were between 7 to 11 years old. The connections between greater gray matter volume and intelligence have been documented only in children with an average age of 15.4 years.
"The exact nature of the gray matter reductions and their potential reversibility remain virtually unexplored," the authors conclude, but "altered regional gray matter is likely impacting brain functions, and hence cognitive developmental potential may be at risk." This, they suggest, should prompt "intensive future research efforts in this direction."
SOURCE: University of Chicago Medical Center

http://dgnews.docguide.com/untreated-sleep-apnoea-children-can-harm-brain-cells-tied-cognition-mood?overlay=2&nl_ref=newsletter&pk_campaign=newsletter

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Importância do apoio dos pais para crianças e adolescentes com Tourette

Muitas crianças com ST apresentam além dos tiques, alguma comorbidade, como TOC, déficit de atenção, hiperatividade, transtornos de controle do impulso, depressão, ataques de raiva, entre outros. Assim, a convivência com uma criança com alteração no controle do próprio comportamento pode ser um desafio para os pais e outros familiares e mesmo colegas de classe ou professores. A forma como as outras pessoas reagem a esses comportamentos ou aos próprios tiques determina, ao longo do desenvolvimento, o tipo de ligação afetiva que se estabelece  entre a criança e seus pais. As crianças têm em seus pais uma figura de apoio e proteção e essa relação de confiança é que promove o desenvolvimento de uma personalidade segura, independente.    Essas primeiras relações na vida de uma criança determinarão se ela será um adulto seguro ou inseguro, confiante ou ansioso. Crianças que desenvolvem um perfil de apego inseguro acreditam que os outros são pessoas indisponíveis, que rejeitam ou até prejudicam e desenvolvem um medo crônico de se relacionar com os outros, por medo de abandono ou rejeição.
Um estudo que pesquisou essas relações em famílias de portadores de Tourette verificou que quanto mais as mães se estressavam e  percebiam seus filhos como sendo "difíceis", maior era intensidade dos tiques em seus filhos.  Torna-se importante, portanto, orientar os pais na forma como devem lidar com seus filhos , tanto em relação aos tiques, como em relação a outros comportamentos,  para minimizar o sentimento de rejeição neles gerado e possibilitar um desenvolvimento mais saudável para formar adultos seguros e independentes.
A terapia de Orientação Parental objetiva isso. Em se tratando de crianças, trabalhar os pais é fundamental.    

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Tourette é uma doença rara?

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é uma doença rara. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), doenças raras são aquelas que afetam até 65 pessoas a cada 100 mil indivíduos. O número exato de doenças raras ainda é desconhecido, mas atualmente são descritas de sete a oito mil doenças na literatura médica, sendo que 80% delas decorrem de fatores genéticos e os outros 20% estão distribuídos em causas ambientais, infecciosas e imunológicas. Aproximadamente 75% das doenças raras afetam crianças.
A síndrome de Tourette, quando se consideram todos os casos, os graves e aqueles inseridos na comunidade, afeta um total de 1% da população. Essa estatística se baseia em estudos feitos em escolas na comunidade, ou seja, considera inclusive aqueles casos que   nunca chega à atenção médica pois não têm gravidade para tanto.
Os casos mais graves são mais raros e as estimativas são de que afetem 1 em cada 4 mil pessoas.
Considerando esses números, não podemos dizer que a ST seja considerada rara, pois é bastante frequente. No entanto, os casos graves sim.
Apesar de ser relativamente frequente, a maioria dos médicos desconhece a síndrome de Tourette. Quando a reconhece, não possui experiência no seu tratamento. Em geral os médicos que reconhecem a ST são neurologistas.
Qual a importância disto tudo?
A maioria das doenças raras são genéticas ou degenerativas ou cursam com uma deficiência mental, sensorial ou física. Doenças que cursam com deficiência garantem o direito aos portadores que não têm renda de pedirem um auxilio financeiro ao Governo (LOAS). Em geral, isso não se aplica à Síndrome de Tourette. A maioria dos casos com ST têm inteligência normal e não apresenta deficiência física. A maior parte dos casos com ST não apresenta impedimento ao trabalho. O maior problema da ST se dá quando os tiques são de difícil controle, mesmo com medicamentos, gerando estranheza às pessoas do ambiente e preconceito. No caso de crianças e adolescentes, bullying. Isso é um problema da sociedade, do preconceito e da dificuldade de lidar com a diferença.
Quando os tiques são graves, tiram a concentração, são dolorosos ou provocam lesões, o tratamento é necessário para reduzir o incômodo associado a eles. Quando são brandos, às vezes nem sequer é necessário tratamento.

Assim, só o fato de ser portador de Tourette não significa que há necessidade de tratamento. Somente os casos mais graves podem chegar a ser incapacitantes, quando aí sim o portador pode pleitear um auxílio do Governo. A maioria dos casos se beneficia de tratamento e pode ter uma vida plena e normal.     

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Complicações no parto e risco de tiques crônicos/Tourette

A causa dos tiques e da síndrome de Tourette ainda é desconhecida. Há evidências de fatores genéticos e ambientais. Os fatores de risco pré e perinatais têm sido investigados. Um estudo que acaba de ser publicado confirma que prematuridade está associada a tiques crônicos.  O Consórcio Internacional de Genética avaliou dados de 586 participantes com Tourette. As análises demonstraram que  parto prematuro e náusea grave na gestação estavam associados a maior risco de tiques crônicos . Outros problemas no parto com complicações neonatais estiveram associadas com presença e maior gravidade de TOC e TDAH.
O que podemos concluir disso é que às vezes não é só a genética que importa, mas as agressões que o feto recebe durante a gestação ou no parto podem ter também influência.
O que fazer?
Não há muito a fazer em relação à genética, mas cuidar da gestação pode reduzir o risco de tiques na prole. Ou seja, engravidar quando estiver saudável, não cometer excessos que possa precipitar um parto prematuro, evitar estresse, cuidar da dieta, evitar medicamentos e drogas durante a gestação, enfim o que estiver ao alcance para garantir que a gestação vá até o fim da maneira mais saudável possível.  
Em relação ao parto, sou favorável ao parto em hospital, acompanhado por médicos. Embora muitas vezes o parto com parteiras, doulas ou enfermeiros em casa seja bem sucedido, a chance de que ocorra uma tragédia em caso de complicação, e a falta de acesso à intervenção adequada de forma rápida, podem repercutir na saúde do bebê e /ou da mãe, quando não ocorre a morte de um ou ambos.   


   

domingo, 7 de agosto de 2016

Medicina Alternativa Funciona?

Depende. Pode funcionar. Denominamos Medicina Alternativa tudo aquilo que não é da Medicina Tradicional, alopática, baseada em evidência científica. Como o conhecimento tende a evoluir, há técnicas que eram consideradas Medicina Alternativa e atualmente já são ensinadas nas Faculdades. Por exemplo, a acupuntura.
Existe um mito de que a medicina alternativa seja mais segura. Por exemplo, muitas pessoas acreditam que os Fitoterápicos por serem “naturais”, não fariam mal. Isso está totalmente equivocado!!!! Toda substância, seja natural ou não, é um corpo estranho ao organismo e pode desencadear reações alérgicas, ou ser mal tolerado pelo fígado e provocar uma hepatite medicamentosa.
Outro conceito que precisa ficar claro é que medicamentos alternativos são medicamentos, são drogas, ou seja, exercem seus efeitos pelos mesmos mecanismos que os remédios tradicionais. Inclusive, muitos remédios atuais tradicionais derivam de plantas que ao longo do tempo foram purificadas. Atualmente, a maioria das drogas é sintetizada em laboratório, mas muitas vezes com base em conhecimentos que vieram de plantas ou outras substancias naturais.
Dito isto, vamos ao que interessa: medicamentos alternativos funcionam? Sim, muitas vezes funcionam e por isso mesmo precisam ser prescritas de acordo com a avaliação cuidadosa de cada paciente. Exames de sangue dirão quais as substancias que faltam ou estão em excesso no seu organismo. Não adianta tomar complexos vitamínicos de forma indiscriminada, se você não precisa deles, não terá benefício.
Os minerais, como sódio, magnésio, potássio, cloro, precisam estar em uma determinada concentração no sangue. Se você toma magnésio demais, pode ter intoxicação. Se toma de menos, pode não ter benefício. Potássio em excesso causa parada cardíaca.
Assim, cuidado com AUTOMEDICAÇÃO, ela pode ser maléfica mesmo quando você toma vitaminas, minerais, remédios tidos como “naturais”.
Por falar em natural, maconha é natural. Isso significa que faz bem? Não! Já o canabidiol, que é extraído da maconha, e livre do THC que causa psicose, pode ser benéfico em casos selecionados.
Cocaína é natural. E aí? É uma droga que causa dependência. Ópio é natural, e a partir dela foi feita a morfina, que é poderosa e têm muita utilidade em casos específicos (dor).
Ou seja, é importante não encarar nada com preconceito. As substâncias, naturais ou não, têm sua utilidade na Medicina e devem ser prescritas por um médico, de acordo com cada caso.


domingo, 10 de julho de 2016

Série de Vídeos sobre Tourette e Afins

Estou programando criar pequenos vídeos de no máximo um minuto abordando os temas que interessam aos portadores de TOC, Tourette, TDAH etc.
Os vídeos podem ser acessados diretamente no Youtube, Canal Ana Hounie (Canal Ana Hounie do Youtube) ou na página do Consultório Ana Hounie (https://www.facebook.com/psiquiatraanahounie/).
Por meio da página do consultório ou pelo e-mail, posso receber sugestões de temas a serem abordados. 

domingo, 29 de maio de 2016

Coisas que Pioram ou Melhoram os Tiques

Algumas coisas fazem com que os tiques piorem e outras, que melhorem. Mas como nada é simples ou fácil, algumas das coisas abaixo relacionadas não se aplicam a alguns casos. Por exemplo, tem gente que não acha que piore dos tiques quando toma café. Então, a lista baixo serve apenas de guia para que cada um se observe e decida como se conduzir no seu dia a dia. Estas coisas são complementares ao tratamento, especialmente em casos mais graves. Em casos brandos estas mudanças de estilo de vida  podem ser suficientes.

Coisas que em geral pioram

1- estimulantes: café, chá preto, chá verde, guaraná, Coca-Cola (tudo o que contiver cafeína) e remédios com estimulantes (metilfenidato, por ex), alguns antidepressivos, alguns vasoconstrictores nasais.
2- Cansaço, estresse, dormir mal


Coisas que em geral melhoram
1- exercício físicos
2- dormir bem
3- relaxamento
4- acupuntura
5- algumas ervas da medicina chinesa

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Livro sobre Síndrome de Tourette

O Livro está agora no link abaixo, da loja virtual da ARTMED/Grupo A
 
 
 
 
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Dez coisas sobre o Tratamento da Síndrome de Tourette que todos devem ter em mente e são difíceis de aceitar

Algumas coisas difíceis de aceitar para quem tem ST e/ou seus familiares:
1- melhora de 100% é raro
2- A resposta aos tiques é individual, cada pessoa responde e/ou tolera as medicações de formas diferentes; só testando pra saber
3- As medicações precisam de tempo para fazer efeito e esse também é variável, ou seja, pelo menos 1 a 2 meses antes de trocar a estratégia
4- as doses também são individualizadas. Enquanto um pode melhorar com 2 mg outro só melhora com 50 mg. 
5- Muitas vezes é necessária combinação de medicamentos
6- tiques oscilam ao longo do tempo, com e sem medicamentos
7- às vezes é necessário psicoterapia para o paciente E seus familiares
8- Os casos que precisam de cirurgia são a minoria 
9 - técnicas alternativas e/ou experimentais não são de primeira linha, como o próprio nome indica
10- Paciência e um médico experiente no acompanhamento é fundamental

Comentário sobre o canabidiol em Tourette publicado na Polbr

Foi publicada no DOU a RDC da ANVISA 66/2016 regulamentando a prescrição e importação de canabidiol:
7) fica permitida, excepcionalmente, a importação de produtos que possuam as substâncias canabidiol e/ou tetrahidrocannabinol (THC), quando realizada por pessoa física, para uso próprio, para tratamento de saúde, mediante prescrição médica, aplicando-se os mesmos requisitos estabelecidos pela Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 17, de 6 de maio de 2015.
A RDC 17/2015 já havia permitido que produtos contendo canabidiol e THC fossem importados em situações excepcionais.  
Em seguida, o Conselho Federal de Medicina, por entender que não há ainda estudos científicos válidos amparando o uso do canabidiol em diversas doenças, manifestou-se publicamente dizendo que tentará reverter essa medida da ANVISA.
Comentarei aqui o estado atual da pesquisa com canabidiol (CBD) e THC no tratamento da síndrome de Tourette (ST).
A cannabis sativa é conhecida como maconha ou marijuana, no espanhol.  Possui vários compostos químicos, psicoativos ou não, chamados canabinoides. Estes atuam no SNC e no sistema imunológico por meio de receptores específicos, CB1 (no SNC) e CB2 (em células do sistema imunológico). O THC é o canabinoide com maior ação psicoativa  e que torna a maconha atrativa como droga recreativa. O dronabinol (versão sintética do THC) e a nabilona são usados como coadjuvantes no tratamento do câncer em alguns países, para combate de dor e náuseas. O canabidiol não é psicoativo. Outros canabidióis descritos são a anandamida e o araquinodoilglicerol.
No Canadá produz-se uma medicação chamada Sativex® que contém um extrato de cannabis com THC e CBD na mesma proporção (1:1), chamadas  nabiximóis.    
A RDC de 2015 permitia a importação de produtos com canabidiol e THC desde que a concentração de canabidiol fosse maior que a de THC. Este inciso foi revogado pela RDC de 2016, ou seja, a importação de produtos que contenham THC em concentração igual ou maior que a de canabidiol estaria permitida.
Foram revogados também os artigos quinto e sexto da RDC 17/2015, transcritos abaixo:
Art. 5º Não poderá ser importada a droga vegetal da planta Cannabis sp ou suas partes, mesmo após processo de estabilização e secagem, ou na sua forma rasurada, triturada ou pulverizada.
Art. 6º Não poderão ser importados cosméticos, produtos fumígenos, produtos para a saúde ou alimentos que possuam na sua formulação o Canabidiol em associação com outros canabinóides e/ou a planta citada no Art. 5 º.  
Assim, teoricamente, a própria maconha e quaisquer produtos dela derivados podem ser importados. Além disso, como as diversas subespécies de cannabis apresentam proporções variadas de THC e CBD, algumas com maior poder recreativo por ter mais THC que CBD e outras com maior poder “medicinal”  por conter mais CBD, a resolução ampliaria a variedade de plantas que poderiam ser importadas.     
Esses detalhes são importantes, pois os estudos em ST incluem tanto o THC como o canabidiol.
Em 1988, dois psiquiatras relataram os casos de três pacientes com ST que diziam melhorar dos tiques com a maconha fumada. Os primeiros e, basicamente, os principais estudos de tratamento da ST com canabinoides foram e continuam sendo feitos por uma pesquisadora alemã chamada Kirsten Müller-Vahl, na Faculdade de Medicina de Hanôver. Os primeiros relatos de caso surgiram em 1999 e um estudo aleatorizado e cruzado com placebo foi publicado em 2002, relatando o uso de uma dose única de Delta-9-THC  em 12 pacientes com ST. No ano seguinte publicaram os resultados de um estudo de seis semanas de uso de THC (doses até 10mg) em 24 pacientes com ST. Todos os relatos até o momento são de melhora  nos tiques. A taxa de efeitos adversos é pequena e eles são brandos e transitórios.
A falta de mais estudos deve-se ao fato da maconha ser ilegal, mesmo para projetos de pesquisas acadêmicas, e somente mais recentemente terem aprovado estudos científicos com o Sativex importado do Canadá para a Alemanha.  
Os poucos dados disponíveis sobre o uso de maconha medicinal em Tourette refratária, já que os estudos ainda estão em andamento e ainda não foram publicados, são promissores. Em julho de 2015, no Primeiro Congresso Mundial sobre síndrome de Tourette, em Londres, a pesquisadora alemã apresentou os dados até aquele momento do uso do dronabinol ou da maconha fumada em pacientes com ST. Segundo sua apresentação, a utilização da maconha fumada promove um início mais rápido de ação sobre os tiques, mas de curta duração. O medicamento, no entanto, leva mais tempo para fazer efeito, mas tem uma duração maior, de algumas horas. O THC deve ser administrado de duas a três vezes por dia.     
Nos pacientes com ST refratária, ou seja, naqueles que não responderam ao tratamento com as diversas drogas das várias classes farmacêuticas disponíveis, testar o tratamento com os naxibimóis pode ser uma alternativa. A RDC 17/2015 não permitia o uso dos compostos testados na ST, visto que até o momento não há nada publicado sobre o uso de canabidiol isolado no seu tratamento e sim apenas o THC isolado ou a combinação em proporções iguais com o canabidiol.   Já na RDC 66/2016, o artigo que determinava a concentração dos dois compostos, foi revogado.
Assim, produtos que contém canabidiol e THC e que já tenham sido testados no tratamento dos tiques podem em tese ser importados para pacientes adultos refratários. Ainda faltam mais estudos controlados com os diversos tipos de canabinoides para estabelecer sua segurança nas diversas faixas etárias. Ressalta-se o alto custo da medicação e o risco de efeitos adversos graves. Como o THC é psicoativo e psicodisléptico, há risco de que provoque alucinações e/ou desencadeie surtos psicóticos em predispostos. Desse modo não deve ser usado em crianças ou adolescentes e em adultos com histórico familiar de quadros psicóticos.  O risco de efeitos psiquiátricos adversos é estimado em 1%.
O Sativex® está disponível na forma de spray para uso orobucal e o Marinol® está disponível em comprimidos.
Sativex_Fails_Drug_Trial 

marinol

 
Referências
Lista de substâncias sujeitas a controle especial. O canabidiol está listado no número 22, junto aos medicamentos que necessitam de receita C1 (branca) em duas vias.  (https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=317687)
 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Canabidiol em Tourette

Na Alemanha estão  fazendo pesquisas sobre o  tratamento da ST com um medicamento que possui canabidiol e THC  na proporção de 1:1. Os resultados que vi serem relatados pela pesquisadora no Primeiro Congresso Mundial sobre a Síndrome de Tourette em Londres, em junho de 2015, foram interessantes. O canabidiol tem sido usado em alguns casos de epilepsia refratária e no Brasil foi autorizada pela ANVISA sua importação para casos selecionados. Não é panacéia. É um tratamento caro e eficaz numa minoria de casos.
Para a ST ainda não poderemos importar. A Resolução será revista em 2016. Até lá, não podemos experimentar nem o canabidiol nem o THC.
No link a seguir , as regras de uso do canabidiol http://portal.cfm.org.br/canabidiol/index.php

 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Tic Helper

No Primeiro Congresso Mundial sobre Síndrome de Tourette fomos apresentados a um site chamado The Tic Helper.

Trata-se de um programa para que o usuário aprenda a monitorar e controlar seus tiques.
É um programa de 8 semanas que serve para crianças a partir de 8 anos de idade. Espera-se que a crianças entre no programa todos os dias por mais ou menos 20 minutos, junto com seus pais. O programa ensina aos pais e os portadores de tiques a identificar os tiques e controlá-los.
É um programa de auto-ajuda interativo.
Foi desenvolvido por psicólogos americamos com experiência no tratamento de tiques dentro da técnica comportamental.

Vantagens:
1- permite que a pessoa faça uma "auto-terapia"
2- é como um manual online
3- foi desenvolvido por psicólogos

Desvantagens:
 1- somente disponível em inglês
2- é pago. Custa 150 dólares pelo programa de 8 semanas (mas é mais barato que 8 semanas de psicoterapia)
3- quando as 8 semanas terminam, para continuar tendo acesso, é necessária uma assinatura mensal.

Fica a dica para os que falam inglês e queiram experimentar.

http://www.tichelper.com/

terça-feira, 14 de abril de 2015

Mais um estudo de Acupuntura e Tourette

O ESTUDO ABAIXO COMPAROU UM GRUPO DE 25 PACIENTES TRATADOS COM ACUPUNTURA E UMA ERVA DA MEDICINA CHINESA COM UM GRUPO CONTROLE TRATADO COM HALDOL . OS AUTORES RELATAM QUE EMBORA O HALDOL FOSSE MAIS EFICAZ NOS PRIMEIROS 30 DIAS DE TRATAMENTO, NOS DIAS 60 E 90 NAO HOUVE DIFERENÇA ENTRE OS GRUPOS. SERIA INTERESSANTE FAZER ESTUDO SEMELHANTE EM OUTRAS CULTURAS E POR TEMPO MAIS LONGO DE OBSERVAÇÃO, POIS 3 MESES PODE SER POUCO TEMPO DE OBSERVAÇÃO , NÃO SE DESCARTANDO O EFEITO PLACEBO E A OSCILAÇÃO NATURAL DOS TIQUES. OUTROS DETALHES NOS FICAM DESCONHECIDOS, POIS O ARTIGO É EM CHINÊS.  
CONFIRAM ABAIXO.  


Zhongguo Zhen Jiu. 2015 Feb;35(2):141-4.
[Clinical controlled trial on infantile Tourette syndrome treated with integrated therapy of acupuncture and medicine].
[Article in Chinese]
Tang Y, Shang Q, Li W, Xu S.
Abstract
OBJECTIVE:
To compare the difference in the clinical efficacy on infantile Tourette syndrome between the integrated therapy of acupuncture and pingganjianpi decoction and haloperidol tablets.
METHODS:
Forty-seven children were randomized into an observation group (25 cases) and a control group (22 cases). In the observation group, acupuncture was applied to Taichong (LR 3), Baihui (GV 20), Zhongwan (CV 12), Zusanli (ST 36), etc. The needles were retained for 30 min. Acupuncture was given once a day and there were 5 days at intervals after 10 times of acupuncture. Additionally, pinggan jianpi decoction was prescribed. In the control group, haloperidol tablets were prescribed, starting from the small dose, 0. 05 mg/kg per day, twice a day. The treatment of 30 days made one session and 3 sessions were required. Yale global tic severity scale (YGTSS) was adopted to observe tic time, tic frequency and tic severity score before treatment and in 30 days, 60 days and 90 days after treatment in the two groups. The efficacy and adverse reactions were compared between the two groups.
RESULTS:
The total effective rates were 40. 0% (10/25), 64.0% (16/25) and 76.0% (19/25) in the observation group and were 59.1% (13/22), 68.2% (15/22) and 77.3% (17/22) in the control group in 30 days, 60 days and 90 days after treatment respectively. The effect in 30 days after treatment in the control group was better than that in the observation group (P<0. 05). The differences at the other time points were not significant between the two groups (all P>0. 05). The tic time, tic frequency and tic severity score at the each time point after treatment were reduced obviously as compared with those before treatment (all P<0. 05). Each item score in the control group was reduced obviously as compared with that in the observation group in 30 days after treatment (all P<0. 05). The differences at the other time points were not significant between the two groups (all P>0.05). The probability of adverse reaction in the observation group was less than that in the control group.
CONCLUSION:
The integrated therapy of acupuncture and medicine achieves the similar effect on infantile Tourette syndrome to haloperidol tablets and the side effects of it are less.

domingo, 29 de março de 2015

Esperança no que concerne à Discinesia Tardia

Temos sempre a preocupação aos prescrever antipsicóticos de que o alto risco de discinesia tardia (DT) supere os benefícios no tratamento da ST, do TOC e outras doenças como esquizofrenia e transtorno bipolar. Apareceu agora um artigo que nos traz uma esperança: uma nova droga que pode ajudar a controlar a discinesia tardia. Copio aqui o resumo em inglês:
 2015 Mar 25:1-6. [Epub ahead of print]

Valbenazine granted breakthrough drug status for treating tardive dyskinesia.

Abstract

The chronic use and high dosing of typical neuroleptics or centrally acting dopamine receptor blocking antiemetics predispose patients to the onset of tardive syndromes. One particular subtype, tardive dyskinesia, is characterized by rapid, repetitive, stereotypic, involuntary movements of the face, limbs or trunk. The inhibition of the vesicular monoamine transporter system, using tetrabenazine therapy, improves the severity of tardive dyskinesia. But there are also drawbacks to tetrabenazine treatment, such as a fluctuating response and the need for frequent intake due to its rapid metabolism. Clinical research on the potentially more efficacious and easier to use tetrabenazine analogs is already under way. One of them is valbenazine, the purified parent drug of the (+)-α-isomer of tetrabenazine. The FDA lowered approval hurdles for valbenazine due to a successful Phase II trial, which showed a distinctive improvement in tardive dyskinesia symptoms during valbenazine administration. This resurgence in the clinical research of tardive syndrome therapy is most welcome. This author notes that the putative long-term side effects of valbenazine should carefully be investigated in the future via naturalistic observational trials. Furthermore, valbenazine may also support the onset of symptoms, such as Parkinsonism and depression, with chronic administration, as it, to a certain extent, shares the mode of action of tetrabenazine.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Lista de Psiquiatras Infantis No Brasil

Como objetivo de facilitar a vida de quem procura profissionais qualificados no atendimento de crianças e adolescentes, resolvi criar um INDICADOR PROFISSIONAL DE PSIQUIATRAS INFANTIS.

No link abaixo vocês encontram psiquiatras que atendem crianças e adolescentes e que fizeram residência médica em PIA ou possuem título de especialista em PIA ou expertise na área.

CLIQUE AQUI PARA VER A LISTA

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Tourette e Ceratocone


 O que é ceratocone?

Do wikipedia: Ceratocone (do Grego: kerato- chifre, córnea; e konos cone), é uma doença não-inflamatória progressiva do olho na qual mudanças estruturais na córnea (que alteram sua biomecânica - resistência e elasticidade) a tornam mais fina e modificam sua curvatura normal (praticamente esférica) para um formato mais cônico. Este fenômeno de protrusão da área corneana afinada é chamado de ectasia(distensão) corneana. A principal consequência do Ceratocone é a diminuição da acuidade visual (visão) proveniente do astigmatismo irregular (distorção da imagem causada pela alteração da curvatura normal da córnea). Visão borrada, imagens fantasmas,sensibilidade à luz e presença de halos noturnos são os principais sintomas relatados pelos pacientes. Trata-se da distrofia mais comum da córnea, afetando 1 pessoa em cada 2.000, parecendo ocorrer em populações em todo o mundo, embora alguns grupos étnicos apresentam uma prevalência maior que outros. Costuma aparecer na adolescência e progredir até os 30-45 anos de vida, quando então estabiliza-se.

 

Há relatos de que pacientes com Tourette podem ter o ceratocone agravado ou iniciado em decorrência de tiques de esfregar os olhos.  

Logo, se os tiques envolverem os olhos, fiquem atentos, consultem um oftalmologista para se certificar de que está tudo bem e procurem tratar dos tiques.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Nota oficial da ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA USO DO CANABIDIOL EM EPILEPSIA

Muito se tem discutido sobre o canabidiol e seu potencial uso para Tourette. Vejam a nota abaixo que esclarece o que se sabe até agora sobre a eficácia em epilepsia. É provável que sirva para tiques, mas ainda não temos casos publicados na literatura científica. Na internet pode haver relatos de sucesso, mas enquanto pesquisadores que se dedicam à pesquisa em Tourette ou à pesquisa do canabidiol não se pronunciarem oficialmente sobre o uso de cbd em ST, não podemos  defender seu uso. Obviamente, em casos graves e refratários, podemos lutar para conseguir o cbd e fazer uma tentativa, desde que obedecidos os critérios de refratariedade e seguindo as recomendações da ANVISA. O cnb não deve ser visto como a solução final. É mais uma tentativa para casos graves. Se na epilepsia, como vocês podem ver no texto abaixo, os resultados são modestos, pode ser que para tiques seja semelhante. É natural que famílias e portadores de tiques graves se desesperem e busquem pela cura ou soluçao milagrosa. Mas cabe a nós médicos sermos prudentes, pesar riscos e beneficios e oferecer aos pacientes informação de qualidade para que cada um opte pelo que achar melhor para si. 
Abaixo, o texto:   

Nota oficial da ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA
USO DO CANABIDIOL EM EPILEPSIA
A Academia Brasileira de Neurologia – ABN através de seu departamento científico – DC de Epilepsia e a LIGA BRASILEIRA DE EPILEPSIA – LBE, respaldada pela Liga Internacional contra Epilepsia – ILAE, posiciona-se quanto ao uso do canabidiol (CBD) em epilepsias de difícil controle.
O CBD é o principal componente não psicoativo da cannabis, com reconhecido efeito antiepiléptico porém com mecanismo de ação, segurança a longo prazo, propriedades farmacocinéticas e interações com outros fármacos, ainda obscuros. As pesquisas clínicas bem conduzidas metodologicamente são limitadas, pois há restrição legal ao uso de medicamentos derivados do cannabis, embora o CBD não possua propriedades psicoativas.
Dr. Orrin Devinsky, médico da New York University School of Medicine foi autorizado pelo FDA a conduzir um estudo aberto com um produto contendo 98% de CBD cujo nome comercial é Epidiolex fabricado pela GW Pharmaceuticals. Neste estudo, Dr. Devinsky administrou inicialmente uma dose de 5 mg/kg/dia associado aos medicamentos que o paciente já utilizava. A dose diária foi gradualmente aumentada até o máximo de 25 mg/kg/dia. Os resultados dos primeiros 23 pacientes, cuja média de idade foi de 10 anos, demonstraram que 39% dos pacientes tiveram redução de 50% de suas crises. Apenas 3 dos 9 pacientes com síndrome de Dravet (um tipo de epilepsia muito grave da infância) obtiveram controle total das crises e 1 dos 14 pacientes com outras formas de epilepsia. Os efeitos colaterais mais comuns foram sonolência, fadiga, perda ou ganho de peso, diarreia e aumento ou redução do apetite. Todos os pacientes recebiam mais de um fármaco antiepiléptico. Os resultados preliminares mostraram uma redução de 50% de crises em cerca de 40% dos pacientes. Tal resultado não difere dos resultados disponíveis na literatura dos mais de 20 fármacos antiepilépticos disponíveis no mercado.
As populações expostas ao CBD são compostas por pacientes com síndromes epilépticas heterogêneas que não responderam a qualquer outro fármaco, ou tiveram sérios efeitos colaterais com os medicamentos disponíveis no mercado. Neste cenário, um composto que tenha qualquer efeito benéfico torna-se potencialmente útil.
Os dados científicos até agora disponíveis permitem concluir que o canabidiol não tem o efeito milagroso para todas as formas de epilepsia como evocado pelos leigos em relação a qualquer outro fármaco disponível no mercado, mas poderá desempenhar um papel importante no tratamento de epilepsias muito difíceis, em casos específicos, ainda não definidos cientificamente.
Enfatizamos que o canabidiol terá aplicabilidade dentro do cenário das epilepsias intratáveis, de dificílimo controle, possivelmente com excelente resposta em alguns casos, razoável resposta em outros e nenhuma resposta em alguns, como observado com o uso de outros fármacos. Um dos exemplos similares é a vigabatrina, fármaco antiepiléptico com excelente resposta terapêutica para síndrome de West por esclerose tuberosa.
A ABN e LBE solidariza-se com as famílias das crianças e adultos com epilepsia refratária, resistente aos fármacos antiepilépticos, compartilha e reconhece a realidade de que em muitos casos o médico assistente não possui opção terapêutica a oferecer, mas acredita que a segurança e eficácia do CBD necessitam ser melhor estabelecidas por estudos bem conduzidos, uma vez que os dados disponíveis na literatura atual não preenchem os critérios científicos exigidos para que tal composto seja utilizado como medicamento de forma indiscriminada. Ressalta também que o uso recreativo de cannabis para epilepsia é completamente contra-indicado.
São Paulo, 11 de dezembro de 2014
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